Eu quero te contar uma história.
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Era uma vez uma garota que em busca de uma vida melhor, deu um abraço carinhoso nos seus pais, acariciou seus bichinhos de estimação uma vez mais e, jogando no seu ombro a única mala que tinha, saiu pelo portão de casa em uma tarde não tão fria de inverno e caminhou em direção ao ônibus que tomaria para a cidade grande.
Lá ela foi viver com um amigo da família: um senhor já de idade que apesar de morar sozinho, recebia visitas constantes de sua amada família. Ele concordou em fazer o favor de alugar o quarto menor que não usava para a menina da nossa história.
Nossa garota não sabia muito da vida, mas chegando nesta cidade nova, juntou toda a disposição e ânimo que tinha e encarou cada dia a dia com um sorriso no rosto, força nas pernas e coragem no coração. Encantou a algumas pessoas por onde passou, e irritou outras também. Pessoas com opinião própria são assim: não agradam a todos e não há nada de errado com isso.
Sara, nossa garota, trabalhava o dia todo e estudava a noite duas vezes por semana. No fim do dia, estava tão cansada que o que mais queria era estar de volta em sua cama, para ler o seu livro antes de dormir, 6 horas antes de ter que acordar para abraçar mais um dia cheio de novas oportunidades.
Mas ao chegar em casa, se deparava com uma sujeira tão grande em sua cama, que antes mesmo de tomar banho ela precisava, de novo no dia, arrumar e limpar tudo. A sujeira era do neto do amigo da família que a hospedava por um preço, mas que não respeitava seu espaço e deixava seu neto mexer em suas coisas e sujar tudo.
Numa tentativa que reconciliar a situação, ela tentou conversar com o gentil senhor que a permitia alugar aquele quarto, mas ele riu de Sara, dizendo que o quarto era dele para fazer o que quisesse. Mas oras, ela o lembrou, ela ainda pagava pelo aluguel. E uma moça jovem precisa de sua privacidade. O senhor, já não tão gentil, disse que não ouviria mais daquilo.
Sara pediu então a seu pai que interviesse e conversasse com seu amigo. Mas seu pai, temendo um atrito que pudesse lhe afetar os negócios, se recusou. E nossa Sara, dizendo a si mesma que aquilo não era de grande importância, se relegou e aceitar uma situação, assim, desrespeitosa.
Não tardou para que logo dinheiro começasse a sumir, pertences a quebrarem e peças de roupa sujarem constantemente. Vendo-se numa situação sufocante, Sara procurou outro lugar para viver, mas a oferta era baixa e a procura era alta, e a busca ficou cada vez mais difícil. Sentindo-se desamparada e sem espaço para respirar com o mínimo de paz, Sara começou a sair para happy hours com Seus colegas de trabalho, na tentativa desesperada de evitar ficar tempo demasiado naquela situação desrespeitosa. E lá, nos Happy Hours, seu laço de amizade com o rapaz Rodrigo se intensificou, e o que era antes apenas amizade passou para algo mais.
Rodrigo era um bom rapaz, tinha concluído com mérito sua faculdade e estudava para seu mestrado. Era trabalhador dedicado e um moço independente. Todos os amigos e colegas de trabalho em comum dos dois acreditavam que Sara e Rodrigo eram uma combinação perfeita, visto que ambos eram gentis, dedicados, honestos e com um ótimo compasso de ética e moral.
Acreditando que seus amigos estivessem certos, Sara se envolveu cada vez mais com Rodrigo. E, para o alívio de Sara, Rodrigo logo virou também um refúgio.
Mas refúgios não são garantidores de um futuro melhor, e a situação na moradia de Sara ficou cada vez pior. Sem dormir direito, o desempenho de Sara decaiu tanto na escola quanto no trabalho. Ela viu sua aparência ficar abatida e até mesmo perder a cor. Antes que pudesse processar o que acontecia consigo mesma, ela entrou em estado deprimido e em modo automático. Saía se amigos chamassem. Já não discutia com seu chefe no trabalho, o que não agradou muito ao chefe, pois apesar das discussões, ele sempre apreciou as opiniões detalhadas e construtivas da moça. Não tinha vontade de fazer nada, mas ainda se encontrava com Rodrigo, que tentava a reanimar com idas a eventos de músicas que ambos gostavam, visitas a restaurantes diferentes e legais, filmes e séries inspiradores.
Mas uma bela manhã, quando Sara ainda dormia, Rodrigo a acordou com toques que apesar de carinhosos ela não os queria. E sem cerimônia alguma ou consideração pelas recusas da moça que saía com ele há alguns meses e vez ou outra dormia em seu apartamento, Rodrigo forçou obter o que dela queria.
Sem forças pra discutir ou reagir, Sara sequer conseguiu processar o ocorrido. Cansada e sentindo-se drenada de energias, de certa forma suja e machucada, ela voltou para o quarto onde pagava seu aluguel. Ignorando as tentativas de conflito com o dono, ela dirigiu-se para o banheiro, onde tomou o que lhe parecia ser o banho mais demorado de sua vida (pois não conseguia, por mais que esfregasse a bucha, tirar aquela sensação de sujeira), e só saiu quando (de novo) o dono desligou a águia quente na central que ficava na cozinha, dando na moça um chique térmico. Tensa pela choque térmica e atordoada pela barulheira em sua mente, ela foi-se deitar em sua cama, que novamente estava suja e desarrumada - uma sujeira e desordem novamente feitas por outrem. Não conseguiu dormir, nem entender o que sentia nem como nem porque. Não tinha fome, nem sede nem vontade de nada.
Mas voltou ao trabalho. Seja o que fosse, o relógio de ponto que registrava a presença de todos não perdoa ausências, não importa de qual tipo. E as contas precisavam ser pagas.
Rodrigo tentou falar com ela, mas sem sorte em obter algo além de um olhar vago da moça, pois Sara não sabia o que nem como responder algo a ele nem a ninguém. E sentia-se mal e culpada por agir assim, pois o Rodrigo havia sido alguém em que confiava.
Algumas semanas depois, quando o projeto de Sara foi concluído e o contrato de trabalho não foi renovado, um amigo de Sara a telefonou para conversar a toa. Era um amigo de infância muito insistente e que aos poucos foi conseguindo reações da moça, mesmo que breve e pequenas. Ora um riso curto, ora uma reprimenda. E em meio a um papo sobre envolvimentos amorosos, Sara contou ao seu amigo sobre como havia conhecido alguém, mas que não havia dado certo. Seu amigo de infância quis saber porque não, e ela contou sobre o ocorrido naquela estranha manhã, onde ela fez sexo com Rodrigo depois que ele insistiu muito, apesar dela já ter recusado várias vezes. Ela disse ao seu amigo pelo telefone que não entendia o porquê de não conseguir ficar mais perto de Rodrigo, já que "nada de mais" tinha acontecido. Um silêncio seguiu-se ao telefone e, sem saber muito bem escolher suas palavras seu amigo de longa data a disse: "vc já estava numa situação desprovida de respeito onde vc mora, e o tal Rodrigo, o que ele fez... foi praticamente um estupro... Vc realmente não sabe mais por que não se importa com mais nada na vida?"
Estupro. Precisou de um amigo seu dizer pra ela que entendesse. Oras pois, onde já se viu uma pessoa forte se permitir chegar a tal ponto em que algo assim acontece? Então ela não era forte, talvez nunca tivesse sido. Não, estupro, como dizem, é coisa que acontece com gente fraca. Mas se fosse "coisa de gente fraca", pensou, isso não aconteceria com crianças ou mesmo adultos indefesos. Aquele ato que a sociedade adora dizer que só acontece com pessoas fracas, ou que se vestem de uma maneira provocadora, como se pedissem. Mas oras, se pedissem, então seria um ato consentido, não passível de ser rotulado de estupro. Não obstante, estupro se tivesse algo a ver com força, seria devido a necessidade do criminoso em subjulgar alguém; nada tendo a ver com a força ou fraqueza da vítima. Mas nada disse importa. Única coisa que deveria importar é o crime cometido.
Estupro. A palavra ecoou na mente de Sara e levou alguns dias para ela compreender a situação insana em que se encontrava. E quando compreendeu, entendeu que se não fosse pela necessidade que sentia de ficar longe de um ambiente de desrespeito e turbulência, mas que era pra ser seu aconchegante lar, ela jamais teria feito de sua vida social e romântica um refúgio. Não teria deprimido e não teria ficado sem forças pra lutar ou fugir de uma situação em que lhe roubam a identidade, dignidades, respeito e escolhas que é a situação de estupro.
E numa chuvosa manhã fria de outono, ela tomou sua decisão. Fechou suas malas e, partiu sem dizer adeus.
E foi assim que aquela menina, outrora cheia de sonhos e confiança em um futuro melhor, foi-se embora não somente de um lar hostil, mas da vida. E ficou apenas a carcaça de uma Sara com uma identidade vazia a ser reconstruída sobre os alicerces de algo irreparável.
