Eu lembro que quando criança a gente assistia a esse seriado, The Pretender. Mais do que qualquer outro seriado que eu já havia visto, aquele me prendia a atenção. Jarod era um simulador, um gênio que havia sido capturado ainda criança pelo Centro e treinado pra fazer o que a instituição bem determinasse. Mas Jarod conseguiu fugir. E como Pretender, ele podia ser tudo o que quisesse.
Tinha sido piloto de avião, médico, bombeiro, professor universitário, engenheiro, etc... mas no fim das contas, apesar de cada episódio ser um profissional diferente pra poder descobrir o que queria (e por tabela, ajudar um grande número de pessoas), no final ele era só mais um fugitivo e alguém que havia sido de tudo, menos a si mesmo. O que, creio, é errado dizer, já que ele ser assim era ele como era.
E no fim das contas você tem N habilidades. Você é designer (por mais que negue), canta (sem inspirar ninguém a vaiar), conserta computadores, ensina, dá treinamentos, atende e controla fluxos de caixa; é fotografa, grava e até já fez uns bicos de limpeza pra repor a grana que você gastou inconsequentemente; já foi tradutora amadora, se dá bem com matemática, química e biologia; já estudou pra ser hacker (e adorava isso) e até já foi a pior pessoa que vc nem imaginava poder ser (e que hoje você entende que consegue ser bem pior)... Já foi a garota que deu a volta por cima e se descobriveu quase invencivel, a sangue frio mercenária que adorava ver um sangue jorrar, a arqueira arcana que recontou toda a História como se conhece e também já foi a herdeira boêmia, fria e arredia, mas complentamente intensa em tudo que faz. Mas o que você não soube ser foi ser você mesma - pois, por mais que o faz de contas alimente nossas necessidades mais básicas (ou ao menos nos dê a sensação de), chega uma hora que a realidade bate a sua porta e, como num piscar de olhos, o tempo passou, tudo mudou e o espelho não é mais uma passagem secreta, e sim apenas algo que reflete a imagem de algo que nem sempre você se contenta em ver.
Mas é quando essa tênue linha, que pode te derrubar pra um momento ultra-depressivo, vibra, você se vê fazendo algo que não imaginaria: com uma postura invencível, você tá completamente equilibrada sobre suas pernas, com uma expressão desafiadora e brincalhona (mas que de brincadeira não tem nada) no rosto e um olhar que frisa a expressão de sua mão, que gesticulou um incrível foda-se pra tudo o que está errado - até a si mesma.
E ai você cai nesse ciclo vicioso de ficar se reinventado toda hora, e sempre que dá errado, manda tudo a merda e começa de novo. O que só vira um problema quando você se esquece dos propósitos que te levaram a cada decisão - mas foi esse mesmo esquecimento de propósitos e sonhos que te fez querer e tentar ser tanta coisa ao mesmo tempo. "Tentar", pq no fim das coisas você não foi nada por completo e apenas acabou como alguém com N habilidades e sem saber o que realmente quer ser - até pq, depois de ser tanta coisa em pouco tempo, você acaba querendo ser mais outro tanto de coisas que você ainda não foi.
Mas no fim, tudo o que vc quer é que tudo acabe bem - até pq enquanto não estiver bem, não acabou.
